Palavra de Quem contou

Carol Levy

Carol Levy

 

Carol Levy é pernambucana, cantora e contadora de histórias. Formou-se em Publicidade em 2003 e, dois anos depois, começou a fazer dublagens para personagens de desenhos animados. Sua vida profissional ganhou sentido quando ela resolveu unir a música às histórias. Com discos, DVDs, programas de TV e de rádio, a artista já ganhou prêmios e fez várias turnês com seus espetáculos pelo Brasil. Quando resolveu se dedicar às crianças, escolheu a música e a literatura infantojuvenil, passando a enxergar o seu trabalho como um lugar de pertencimento, de fala e de posicionamento, político, ético e moral.  

Contar histórias é convidar a olhar pra dentro. É mexer com nossas sombras através da arte. Apontar caminhos e possibilidades de cura. É convidar a sonhar, a viver e a reviver por meio da narrativa do outro que, em algum momento, vai interceder com a nossa.  

O ofício do contador é de uma responsabilidade sem fim e isso eu só fui percebendo aos poucos, ao longo desses anos de partilha ouvindo os relatos de quem me escutou. Os contos são retratos da vida, da história de um povo, das dificuldades da construção do eu e do espaço em que ele está contido. É muito mais profundo e importante do que a gente imagina, e eu fui entendendo tudo isso com muito estudo e, na prática, quando me deparava com pessoas relatando suas emoções e ações após a escuta de determinada narrativa. 

É de um prazer sem fim poder narrar histórias e me sentir parte da construção do caráter das crianças. O Deixa que eu Conto é um podcast recheado de grandes contos e incentivos a sermos melhores. Aproveito para deixar um recado aos professores que nos acompanham: queridos, usem e abusem desse podcast. Ele é nosso! 

Kiara Terra

Kiara Terra

Meu nome é Kiara Terra. Sou atriz, escritora e narradora de histórias desde 1998! Tenho uma paixão pelas palavras porque elas me contam desde pequena quem sou, a que pertenço e que posso voar mais alto para conhecer o mundo. 

Cantar, contar histórias e fazer perguntas curiosíssimas sobre o mundo foram três coisas que nasceram com o podcast  

Deixa que eu Conto e foram elas, as palavras, que embrulhadas para presente trouxeram um desejo verdadeiro de encontrar adultos e crianças, famílias e educadores. 

Ao longo dos meses escrevemos, gravamos e musicamos as palavras para que elas pudessem viajar por todo o Brasil levando aconchego, afeto, humor e informação. Mas era preciso que esse presente feito de palavras viesse com um convite que revelasse seu segredo mais precioso. E o guia que aqui está é que vem contar a todo mundo que o Deixa que eu Conto carrega o sonho de cuidado, proteção e acesso à educação a cada criança brasileira e estende esse cuidado às famílias e a quem sempre soube sonhar junto às educadoras e aos educadores.  

A todos vocês: sejam bem-vindos ao Deixa que eu Conto e às boas histórias! 

Com amor e perguntas curiosíssimas. 

Leandro Medina

Leandro Medina

Sou Leandro Medina, artista cênico, educador, poeta, compositor e alquimista, natural de Belém/PA e residente em São Paulo desde 1993. Pesquiso a cultura tradicional brasileira, em especial, o capítulo “Brincar”, e realizo curso de formação de professores desde 2001.

No ano de 2020 recebi o convite (presente) de voltar à Amazônia, através do podcast Deixa que eu Conto, e revisitar minha curiosidade de criança - quando me deparava com as descobertas maravilhosas sobre a fauna e a florada imensa floresta.

Foi uma experiência amorosa, vista pela janela da educação, contemplando a oportunidade de ressaltar, não somente a importância dos biomas, mas também a valorização das diversas culturas dos povos indígenas, ribeirinhos e quilombolas.

Pesquisamos narrativas contadas pelos povos originários, trouxemos brincadeiras populares enraizadas na região e muitas, muitas curiosidades fantásticas para os ouvidos das crianças que nos escutariam. Dentro desse processo também foi impossível não reconhecer, nesse legado, uma ferramenta poderosa de auxílio a professores e professoras, neste ano desafiador, trazendo argumentos que pudessem ser aproveitados para o desenvolvimento dos educandos, despertando pequenos leitores e os estimulando para o mundo da imaginação. 

O Deixa que eu Conto – Amazônia, essa maravilhosa iniciativa do Unicef, feita a partir de uma receita carinhosa de respeito e afeto, está disponível a todos, como um delicioso bolo, pronto para ser dividido, trazendo o sabor da descoberta de nossas origens, de nossas palavras e principalmente de nossos costumes.

 Andrea Soares

Andrea Soares

Eu sou Andrea Soares e, na estrada da vida, tenho muitos fazeres: artista cênica; pesquisadora das culturas tradicionais brasileiras; narradora de histórias; educadora somática, através da Eutonia; e fundadora e diretora do Núcleo Pé de Zamba de Pesquisa Cênica. Leciono Danças Brasileiras na Escola Superior de Artes Célia Helena, no espaço Ilumiara – Ser e Conhecer e em diversas instituições onde também atuo como curadora de cursos e eventos ligados às Cultura Tradicionais Brasileiras e ao corpo consciente.

Cocriar o Deixa que eu Conto - Amazônia foi uma experiência ímpar! Primeiro porque me dei conta de que a região amazônica tinha muito mais a descobrir do que eu imaginava e, assim, foi um maravilhoso trabalho de pesquisa que, junto ao Leandro Medina, trouxe uma proposta de criação na qual a diversidade dos povos, suas culturas, suas crenças, suas festas e seus modos de viver pudessem ser revelados a todas as pessoas que acessassem os programas, em especial as crianças. Isso é, para mim, o que faz o programa tão importante para elas, suas famílias e, fundamentalmente, suas professoras e professores.

Cada episódio do Deixa que eu Conto - Amazônia foi carinhosamente pensado para reforçar, entre as
crianças da região amazônica, aspectos de suas culturas, trazendo-lhes a noção de pertencimento, e entre as crianças do Brasil, um olhar mais amplo do que é ser brasileiro. Isso porque, na vastidão territorial e na pluralidade cultural brasileiras, a realidade é que muito pouco se sabe sobre o Brasil, mesmo dentro da própria região onde se vive. Essa é uma questão estrutural que vem se modificando, mas que depende da ação de muitos agentes, que vão desde o poder público até a atitude em sala de aula, passando pelas formações de professoras e professores. Se o conhecimento sobre essas múltiplas realidades de Brasil não chega aos professores, como apresentar às crianças um pouco de suas próprias realidades?

As narrativas de histórias inspiradas nas realidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas e outras populações tradicionais da Amazônia Legal, bem como suas brincadeiras, musicalidade e corporalidade, metodologicamente pensados para serem acessados através da audição, teceram uma rede de afetos e descobertas que apoiam os professores em múltiplas possibilidades de trocas e estímulos para as crianças, seja em atividades presenciais, seja a distância, instigando a imaginação e propondo um leque de possibilidades para a aprendizagem totalmente pensadas dentro dos parâmetro da BNCC, com muita criatividade e diversidade. 

Uma proposta que possibilita a construção de uma infância, convivência e cidadania repletas de humanidade e respeito mútuo, diante da grandeza das muitas brasilidades do Brasil.

Samara Rosa

Samara Rosa

Sou Samara Rosa, apaixonada pela educação. Atuo como docente há mais de 16 anos, sendo formada no Magistério, Pedagogia, MBA em Gestão Escolar, com Especialização em Literatura e Contação de Histórias. Estive por oito anos em instituições privadas, mas a prática de professora na escola pública é minha realização. Atualmente estou focada em alfabetização e letramento, e nessa função foi ainda mais latente a minha percepção da literatura na formação do indivíduo. A paixão pelas histórias que ouvia da minha família e pelos livros que lia só foi aumentando com o passar do tempo, o que fez com que me tornasse um alto-falante das histórias, transportando minha voz e corpo para a arte da Contação de Histórias.

O Deixa que eu Conto afro-brasileiro é uma realização pessoal e profissional. Poder produzir um material com uma diversidade de histórias, relacionando Brasil e África, foi fantástico. Na produção, só pensava: “como eu precisava de materiais assim para dinamizar minhas aulas e ampliar o repertório dos meus alunos”. Essa vivência do chão da escola foi meu facilitador na criação dos conteúdos do podcast.

Esse material traz possibilidades para um momento deleite ou um gatilho para produção de pesquisas com mais aprofundamento da cultura africana. Tendo em vista que temos a Lei 10.639 de janeiro de 2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de "história e cultura afro-brasileira”, esses programas abrem uma grande oportunidade de auxílio para que se cumpra de forma positiva e relevante para a infância.

A cada episódio busquei trazer histórias que já contei aos pequenos, memórias de brincadeiras e ampliação de vocabulário afro-brasileiro e conectar com vozes de crianças e diversos profissionais negros. O que sempre tive em mente é levar para escolas, famílias e comunidade a possibilidade de conhecer o lado da história africana que não é comum se destacar. Tem história da cultura popular de países africanos, de livros de escritoras negras de literatura infantil e de profissionais negros como artesã e cientistas, que possibilitam que as crianças escutem por outro viés as vozes negras.

Mafuane Oliveira

Mafuane Oliveira

Olá! Meu nome é Mafuane Oliveira, sou pedagoga, arte-educadora e amo contar histórias. Muitas crianças e adultos, quando escutam meu nome, comentam: “Nossa, mas que nome diferente!”. Meu nome é africano e desde pequena meus pais me ensinaram que significa “terra natal”, ou seja, saudade de seu local de origem, de suas raízes. Recebi esse nome para homenagear nossos ancestrais africanos que durante muito tempo, no Brasil, foram obrigados a adotar nomes europeus.

Sou uma menina muito curiosa e já viajei para muitos lugares a fim de pesquisar e viver novas histórias. Já estive duas vezes no continente africano. Em 2017 visitei e trabalhei em Moçambique, e neste país descobri que meu nome também significa “guardadora de rebanhos ou pastora de gados”, na língua changana. Como eu não crio gados, me considero pastora ou guardadora de histórias. 

Desde 2008, trabalho com literatura e narração de histórias, tendo criado um projeto de narração  chamado “Chaveiroeiro”.  O Chaveiroeiro é um objeto mágico formado por chaves que abrem as portas das histórias e dos corações.  Comecei a contar histórias na biblioteca da escola em que eu dava aula. No começo, eu contava histórias para incentivar a leitura. Mas no decorrer dos anos fui percebendo que a narração é muito mais potente do que esse lugar utilitário que, muitas vezes, a escola e a sociedade a colocam. A oralidade e a narração de histórias são valores civilizatórios de muitas nações, mas sobretudo daquelas que se organizam pela oralidade, como as comunidades afro-ameríndias. 

É uma grande honra poder participar deste projeto maravilhoso e partilhar com vocês algumas histórias que são especiais para mim. Nos episódios que roteirizei para o Deixa que eu Conto, optei em apresentar narrativas de países africanos que visitei e outros que compartilham a nossa língua portuguesa. Os episódios estão recheados de músicas, entrevistas e curiosidades relacionadas à diáspora negra. 

Para aproveitar melhor cada programa, é importante que cada educador escute os episódios antecipadamente, como fazemos quando vamos ler um livro. Crie rituais para preparar o corpo das crianças para essa escuta coletiva. Em cada podcast, há um elemento que sinaliza que algo especial vai acontecer. No meu caso, é o som do “Chaveiroeiro”. A escuta do programa não precisa ser estática: nossas pequenas e pequenos podem falar, fazer perguntas, pausar, dançar. Vale lembrar que, quando as crianças não estão acostumadas a escutar podcasts, essa mudança não vai acontecer do dia pra noite... Então, às vezes são necessárias paciência e tentativas. O processo educacional é algo gradativo, que se constrói diariamente.  

Espero que este guia e os programas do Deixa que eu Conto contribuam na missão e na responsabilidade que educadoras e educadores têm em oportunizar a ampliação do repertório cultural das crianças. Espero também que através das histórias possamos promover a equidade e a valorização de diferentes patrimônios socioculturais. 

Vovó Cici de Oxalá

Vovó Cici de Oxala

Vovó Cici de Oxalá é considerada uma das grandes mestras griôs do Brasil, prática baseada na tradição oral para transmissão de saberes culturais, além de ser responsável por um trabalho com crianças e pesquisadores sobre a relação entre África e Brasil, na fundação Pierre Verger, em Salvador. Ela ainda ajudou o fotógrafo e antropólogo francês, que viveu parte da sua vida em Salvador, a catalogar mais de 11 mil fotografias ligadas à cultura afro-brasileira e às culturas de nações africanas como Benin, Togo, Gana, Nigéria e África do Norte.

Kemla Baptista

Kemla Baptista

Pernambucana radicada no Rio de Janeiro, Kemla Baptista é educadora, percussionista e arteterapeuta em formação, tendo também estudado dança na UFRJ. Mais recentemente fez a curadoria pedagógica das oficinas infantis de cocriação da escultura do Galo da Madrugada, em parceria com o artista plástico Leopoldo Ilóbrega. Contadora de histórias e criadora do “Caçando Estórias”, participou de vivências e cursos com grandes mestres de narração oral e literatura infantil, como Ebomi Cici de Oxalá, Vanda Machado, Sônia Rosa e Francisco Gregório Filho. Dedicada às causas dos direitos dos povos de terreiro, realiza espetáculos e rodas de leitura em comunidades tradicionais do Rio de Janeiro e de Pernambuco.

Coletivo Amazonizando

Coletivo Amazonizando

O Deixa que eu Conto é uma iniciativa inovadora porque tem explorado caminhos ainda não trilhados dentro da linguagem utilizada (podcast). A delicada e assertiva curadoria feita para encontrar os criadores desse conteúdo gerou para o projeto uma rede de afetividade, absolutamente visível no resultado final de cada episódio.

A minha experiência como entrevistador, contador de histórias e pesquisador de territórios quilombolas na Amazônia tem refletido, de uma forma muito especial, na contação das histórias, pois apresento um pouco das minhas vivências nos quilombos amazônicos, trazendo histórias reais ou fictícias, mas inspiradas em personagens quilombolas.

Nós, do Coletivo Amazonizando, temos nos emocionado bastante com o retorno da escuta. É notável a necessidade de uma iniciativa dinâmica e diversa como essa. Logo, produzir conteúdo para fazer parte de uma metodologia de aprendizagem em meio à pandemia é de muita responsabilidade, algo impossível de acontecer sem uma imersão na proposta criativa de garantir o direito de sonhar e aprender, contribuindo com uma perspectiva de um mundo melhor. Esse é nosso compromisso, sendo impossível enquanto Coletivo Amazonizando não imergir no Deixa que eu Conto sem transpor sentimentos e o bem-querer amazônico. Porém, todas as equipes que passaram por aqui demonstraram no seu fazer o mais puro e verdadeiro sentimento de amor de axé, emanando força e energia positiva pro mundo inteiro. 

Ao lançar mão dessa ferramenta que propõe uma nova linguagem na formação e na aprendizagem de crianças, esteja pronto para aprender também, porque tudo foi feito pensando nas crianças, mas apresentando respostas com o diferencial da inclusão, da não produção de estereótipos, e considerando a dúvida um estímulo para a construção do pensamento individual e coletivo. Sem, contudo, precisar de unanimidade para confirmar o sentir de cada criança que escuta, incluindo ainda a criança que mora dentro de você. 
 
O Deixa que eu Conto é para a família, é para a escola, é para a igreja, é para as associações, é para a vida, é diverso em sua concepção e elaboração, tem homens negros e mulheres negras e não negros(as), do Norte, do Nordeste, do Sudeste, valendo destaque aos dois griôs Vovó Cici e mestre Ivamar, ambos com mais de 60 anos.

O Deixa que eu Conto afro-amazônico é um projeto “descolonizador”,  trazendo histórias sob a perspectiva dos ancestrais para serem recontadas, quebrando estereótipos  eurocêntricos, tendo sempre presente a diáspora africana como base na certeza de que estamos avançando na eliminação dos preconceitos, do   racismo e da xenofobia e sobretudo do racismo nosso de cada dia, herança dos colonizadores.

Essa interface desperta as possibilidades afro-brasileiras de identidade e de percepção do diferente, sendo engraçada, musical, prática, sugestiva, educativa, corporal, dançante, alegre, tendo suspense, para aguçar a imaginação. Tudo isso é lúdico, é territorial, é amazônico, é natural, é natureza.